quarta-feira, setembro 23, 2009

 

Casa Bom Samaritano: Uma capelania evangelizadora


Numa das passagens pela comunidade de Fátima, quando era provincial, pediram-me para ir celebrar ao Bom Samaritano. Encontrei a porta entreaberta. Entrei e fui descobrindo intuitivamente a capela e a sacristia. Revesti-me e ao cântico inicial entrei na capela. Perante o rosto desconhecido do sacerdote, a devoção cedeu lugar à interrogação. A curiosidade das meninas era palpável. Logo que terminei a saudação inicial da missa e fiz uma pequena pausa, imediatamente surgiu uma porta-voz da ansiedade de todas: “Como te chamas?” Fiz uma tímida apresentação que a irmã coordenadora completou dizendo que eu era o superior dos padres do Verbo Divino que vinham habitualmente ali celebrar a Eucaristia. Perante tal apresentação, olharam-me de alto a baixo com olhar surpreso. Compreendendo a sua admiração, perguntei-lhes: “Não parece, pois não?” A resposta foi unânime: “Não!” Sorri e imediatamente me senti em casa. Estava perante pessoas crescidas com olhar de criança, incapazes de representar um papel aprendido quando no palco da vida a verdade lhes parecia outra.
Contemplando este mundo à parte, a partir do mundo pragmático e eficiente em que vivemos, interroguei-me se valia a pena um grupo de irmãs, consagradas à Divina Providência, gastarem a sua vida com pessoas que a sociedade considera inúteis e um fardo? Confesso que a primeira reacção foi de estranheza e de dúvida.
Com o andar do tempo e conhecendo melhor as irmãs e as pessoas que habitam esta casa diferente, a minha estranheza foi sendo vencida pela admiração e estima. Aprendi a olhar para além das limitações e a surpreender-me com a pureza de coração na espontaneidade e simplicidade da verdade duma criança com corpo de mulher. Neste oásis de humanidade aprendi a ver para além das aparências e a valorizar a pessoa humana mais pelo que é do que pelo que faz.
Esta capelania faz parte do projecto comunitário dos missionários do Verbo Divino em Fátima. O que começou por ser um compromisso esporádico foi sendo assumido por todos os que têm passado pela comunidade como um projecto natural e querido. Não é visto como um serviço ou um dever, mas quase como uma extensão da nossa comunidade. Participando desta forma na missão das irmãs, sentimo-nos também nós em missão.
As meninas brindam-nos com a amizade e o interesse por todos os sacerdotes que por ali passaram. A sua memória é extraordinária quando o reconhecimento as preenche. Perguntam por este e aquele padre. Mandam cumprimentos. Dizem que têm saudades e rezam por eles. Num mundo de indiferença e de esquecimento, todo este carinho e interesse é evangelizador e compensador.
À capela vêm apenas as que querem e têm condições para isso. Muitas outras ficam nas suas salas e ouvimos, de vez em quando, os seus gritos incontrolados de quem não sabe falar de outra forma. No entanto, todas na casa têm um nome e fazem parte da família do Bom Samaritano. A comunidade de irmãs, portuguesas e timorenses, convive com todas estas situações e vêem neste serviço uma missão de amor ao próximo. Tal como o bom samaritano, acolhem as rejeitadas da sociedade, cuidam delas, curam as suas feridas e aceitam-nas como irmãs de caminhada. Uma família diferente simplesmente! Um desafio profético ao ideal de perfeição, beleza, eficácia e sabedoria dos nossos tempos.
Nas festas da comunidade tive oportunidade de perceber que há muita gente que aprecia esta obra e dela é benfeitor e amigo. Nota-se a Divina Providência em acção. Parabéns às irmãs por esta obra que nos desperta tantos sentimentos de gratidão e humanidade.

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